A verdadeira história do “Bailinho da Madeira”

Artur Andrade escreve sobre música no suplemento do Diário de Notícias da Madeira “A malta do Manel” destinado às crianças madeirenses. Na edição de 22 de Setembro de 1990 explica como foi criado e divulgado o famoso Bailinho da Madeira.

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O nosso bailinho…
Artur Andrade*

“Deixa passar”
Esta nossa brincadeira”

Claro que todos vocês conhecem estes versos e a música a eles inerentes… (Haverá em qualquer parte do mundo um madeirense que não os conheça?)
Pois meus queridos! Na quarta-feira desta semana fez cinquenta e dois anos que o Funchal ouviu pela primeira vez esta melodia tão nossa identificadora: O bailinho da Madeira.
Vou contar tudinho porque, eu – então com a idade da maioria de vocês – estava lá…
Foi numa segunda-feira, 18 de Setembro de 1938… Nesse fim-de-semana realizara-se uma denominada “Festa da Vindima”, com o fim de angariar donativos a benefício da Escola de Artes e Ofícios – que tinha sido vítima de um incêndio – instituição mais tarde substituída pelo actual Colégio dos Salesianos.
De várias freguesias vieram ranchos trazendo produtos da terra que foram vendidos a favor da dita instituição. Pela mesma altura realizou-se no Campo Almirante Reis um concurso com grupos folclóricos… Estou a vê-los…
Numa tribuna, armada no local, estavam presentes o governador civil e outras entidades. Num outro estrado exibiam-se os grupos folclóricos. Mas curiosamente, a melodia – hoje famosa em “todo o mundo” – é tocada e dançada não no estrado mas sim quando se dirigem junto à tribuna para cumprimentar as autoridades. Passou-se assim…
Chegada a vez do grupo do Arco da Calheta, este com o chamado “Feiticeiro da Calheta” – com a sua viola de arame – à frente, avança cantando o seguinte estribilho:
” Deixa passar
Esta nossa brincadeira
Que nós vamos cumprimentar
O governo da Madeira”
Seguem-se quadras – que a memória não lembra – tudo letra e música do já falado “Feiticeiro da Calheta”.
De tarde, e pela noite adiante, o rancho vencedor e outros percorriam a cidade cantando ao som da música do actual bailinho da Madeira:
” Deixa passar
O senhor da capa preta
Quem ganhou o primeiro prémio
Foi o rancho da Calheta”
Depressa a melodia se torna popular.
Uma orquestra madeirense, __ Tony Amaral – tendo o nosso Max como vocalista e que durante alguns tempos actuaram no Continente, fazem um arranjo com sabor e influência da nossa música folclórica, tornando-a conhecida em todo o Portugal.
Hoje, deve ser a música portuguesa de raiz popular mais conhecida, não só no nosso país como fora dele … Exemplo, é o facto de ter sido gravada pela sinfónica de Londres.

Nota:
Do «Feiticeiro da Calheta” – o verdadeiro autor do “Bailinho da Madeira” – falecido na década de setenta – quem dele se lembra?…
O jornalista do Diário de Notícias, na época, dizia tratar-se do “Feiticeiro do Norte” mas, este é um outro – a nosso ver com mais valor – poeta popular do Arco de São Jorge falecido na década de cinquenta.

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*Artur Andrade (desenho de António Rodrigues) foi Professor, músico e homem da imprensa, nasceu em 1927, em S. Vicente, e morreu em 1992.
Nos anos 70 com António Aragão (historiador) realiza recolhas de música tradicional. Trabalho editado em 1982, 2LP intitulado “Cantares e música da Madeira” e alguns CDs em 1996 editados pela DRAC.

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