Senhor dos Milagres – Machico

A vensenhormilagreserada imagem do Senhor dos Milagres.
Esta cruz deve datar do séc.XVII ou dos inícios do século seguinte, havendo a possibilidade de ser um trabalho de oficina portuguesa. Nos anos oitenta, foi alvo de um profundo e aturado restauro no Instituto José de Figueiredo, que lhe retirou todas as camadas de tinta posteriores, voltando, o mais possível, ao aspecto primitivo. Como apontamento, na perna direita, ficou os vestígios dos sucessivos repintes.

 

 

O Senhor Bom Jesus dos Milagres*
João Lino Moreira

capela

A actual capela do Senhor Bom Jesus dos Milagres, ou como é mais comummente conhecida, Capela dos Milagres, localizada no Sítio da Banda d’Além de Machico, encontra-se intrinsicamentente ligada às lendas, umas com mais ou menos base histórica e veracidade que outras.
A lenda dos infelizes amantes Robert Machim e Ana d’Arfet, que teriam fortuitamente aportado à Baía de Machico, aponta para o facto de que, quando os primeiros navegadores portugueses chegaram a Machico se terem deparado com um epitáfio sobre o túmulo de Ana d’Arfet onde se expressava o desejo daqueles em ali se construir um templo em honra de Jesus Cristo.
É certo que o primeiro nome desta capela terá sido de Nosso Senhor Jesus Cristo ou simplesmente de Cristo mas a sua fundação nada terá a ver com esta lenda, antes estará relacionada com a gesta da expansão portuguesa. Parece que quando os descobridores Zarco e Tristão pisaram pela primeira vez solo madeirense, precisamente na parte oriental da Baía de Machico, e no dizer de Gaspar Frutuoso, logo impro-visaram um altar, tendo um franciscano que acompanhava a frota celebrado no dia 2 de Julho de 1419 a primeira missa nesta Ilha. Estes fizeram um voto de naquele mesmo local erguer um templo em honra de Cristo como agradecimento da nova terra descoberta. Esta é certamente uma explicação que se nos apresenta mais verosímil à versão romântica tão ao gosto do século XIX.
Parece ser esta capela a mais antiga da Madeira e o primeiro templo cristão construído pelos Portugueses fora do rectângulo nacional.
Sendo a capela uma velha vizinha da ribeira que atravessa toda a freguesia de Machico não admira que por várias vezes uma e outra se unissem por via das frequentes cheias, aqui conhecidas por aluviões.
Efectivamente, a história da Capela dos Milagres está também indissociável das aluviões que desde cedo fustigaram Machico, fazendo vítimas e grandes estragos, a última das quais no ano de 1956. De todas elas a mais grave, pelo seu grau de destruição, foi a de 9 de Outubro de 1803. Trata-se de uma catástrofe que atingiu toda a Ilha da Madeira, em especial os concelhos de Machico e Funchal. A chover durante alguns dias, pelas nove horas do dia 9 de Outubro parecia que as ribeiras se tinham enchido instantaneamente sendo tão precipitada a sua torrente, que volvendo penedos e troncos d’arvores de extremada grandeza, deo com elles de encontro em pontes, muralhas, e famozos edificios, inumdando huns, e arrojando outros ao mar.1
(…) Na margem esquerda da ribeira a água entrou pela Capela da Misericórdia (agora assim chamada por ser a sede desta instituição em Machico) destruindo-a quase por completo e arrastando a imagem do Senhor Jesus Cristo para o mar.
Alguns dias depois uma galera dos Estados Unidos da América que cruzava estas águas encontrou a dita imagem a flutuar em alto mar e veio entregá-la à Sé do Funchal. Porém, conta a tradição popular que a dita galera quis prosseguir viagem levando o Cristo a bordo mas que, quantos mais esforços faziam para seguir viagem mais o barco andava para trás. A solução, foi, portanto, regressar ao Funchal e devolver a imagem.
Era de facto um milagre que no meio de tanta desgraça e destruição se salvara a imagem intacta. Iniciara-se assim a veneração ao Senhor dos Milagres.
A capela foi reconstruída e ampliada nos anos imediatos pelos irmãos da Misericórdia mantendo-se dentro do possível a traça original. Para tal muito contribuiu o esforço e dedicação do provedor da Misericórdia Cristóvão Esmeraldo.
Desta forma estavam criadas as condições para o regresso da imagem à sua ermida. E a imagem do Cristo Crucificado, que se encontrava fora de casa há dez longos anos, regressou à sua capela no da 15 de Abril de 1913, sendo transportada da Sé até Machico num escaler e, chegando a terra, o povo levou-a em procissão até à sua morada.
Em 1862, encontrando-se a capela em estado de degradação, foi demolida e reconstruída. Por ser facil de alagar no Inverno2 foi reconstruída num plano superior ao alveo da ribeira.
(…) A veneração ao Senhor dos Milagres que se iniciara após a terrível aluvião de 9 de Outubro de 1803 passoua ser anualmente assinalada pelas festividades conhecidas como a Festa do Senhor dos Milagres. Estas festividades bem como a adoração ao Senhor dos Milagres, onde se inclui uma das principais procissões de fé da toda a Região, foi atraindo ano após ano um cada vez maior número de fiéis e romeiros provenientes de toda a Ilha. Neste capítulo foi muito importante o contributo da navegação costeira a vapor, sobretudo a partir dos inícios do século XX na medida em que os barcos transportavam muitos forasteiros. Não sendo o Senhor dos Milagres o orago de Machico é curioso o facto deste ser alvo de uma maior veneração da população em relação à padroeira Nossa Senhora da Conceição.

procissaofotomnicokau

(…) Anualmente milhares de pessoas assistem e/ou participam numa das maiores, senão a maior procissão de fé de toda a Ilha da Madeira, a procissão do Senhor dos Milagres, que se realiza na noite de 8 de Outubro. Neste dia a imagem do Senhor Crucificado é levada num andor para a igreja matriz aí permanecendo até o dia seguinte, dia da aluvião, regressando acompanhada de muitos fiéis à sua capela. Os crentes aproveitam para agradecer ao Senhor as benesses a ele solicitadas ao longo do ano. Para tal levam consigo ex-votos e círios a simbolizar o pagamento das dívidas sagradas contraídas em ocasiões de maior aflição e apuro.
Dado que o bairro da Banda d’Além era basicamente um bairro de pescadores o Senhor dos Milagres tornou-se o seu protector. Daí que sejam os pescadores que ainda hoje acompanham a procissão com os archotes e carregam o andor.
De forma a sobressair a imponência dos archotes e das velas bem como todo o ambiente de esplendor e de fé colectiva, desde há muitos anos que a iluminação pública é apagada no momento da procissão.
Duzentos anos após a grande aluvião de 9 de Outubro de 1803 que, para além das vítimas e destruição, “transformou” um Senhor Jesus Cristo em Senhor dos Milagres, continuam bem vivas as tradições e o culto ao Senhor Bom Jesus dos Milagres. As suas festividades, no passado e no presente, pautam-se pelo ambiente misto de festa e de tristeza, de uma fervorosa religiosidade misturada com o mais típico arraial profano madeirense.

Notas:
1- Arquivo Histórico da Madeira, Vol. II, p. 157.
2- Annais de Machico, fl. 22.

galera

Versos da Barca, recolha de quadras populares*

Resumo de 50 quadras populares que contam a história do Senhor dos Milagres. Recolha efectuada por Maria José de Castro, membro do Grupo de Folclore de Machico, por informação oral de Conceição Pão, moradora na Rua da Banda d’ Além.

I
Nesta vila de Machico
Grande tragédia se deu
Foi um grande aluvião
Como nunca aconteceu

II
Foi três dias a chover
Sempre sem parar
Destruí-se a Capela
E o senhor foi ao mar

III
Quando estávamos no mar
Ficámos admirados
avistamos uma cruz
era o senhor dos Milagres

IV
Quando vimos o Senhor
Tratamos de o levantar
Com as lágrimas nos olhos
Começamos a rezar

(…)

IX
Levaram-no para a Sé
E não o queriam dar
Foram barcos de Machico
Todos o foram buscar

X
Veio até ao Garajau
Para ninguém perceber
Do Garajau para cá
Com archotes a arder

(…)

XLIV
Nas ondas do mar alto
Naquele mar tão profundo
Ó meu Senhor dos milagres
Queira dar a paz ao mundo

(…)

Fonte: * 1803-2003, Memórias de uma Aluvião, Colecção Patrimónios, CMM, 2003

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